ESPECIAL
14 de novembro de 2005
Rozane
Monteiro
Os
netos que De Gaulle não queria
Distúrbios causados por jovens descendentes de africanos
soam como ecos do passado colonialista do país
Há
cinco décadas, alguns africanos o chamavam, em francês, de ''Papai De Gaulle''.
Era o general da França colonialista e estava nos livros utilizados pelos
professores que o país mandou ''educar'' as crianças das colônias, como se
pudessem fazer toda uma geração de negros passar a ter um passado habitado
apenas por brancos europeus. Não funcionou, como a História provou, e
especialistas acreditam que a França está colhendo hoje os frutos da tentativa
frustrada de ignorar todas as culturas que não sejam a sua própria, erro
cometido mais uma vez atualmente.
- O problema era a
forma como ensinavam francês, como se as crianças já fossem francesas. A
questão é que o país sempre achou que, se uma pessoa aprende a língua e recebe
informações sobre sua cultura, vira, automaticamente, um cidadão nacional.
A França sempre
viu seus valores como universais. Esses jovens de agora vivem isso na carne.
São franceses, mas não têm as mesmas oportunidades. E não se sentem franceses.
O país os faz se acharem diferentes. Conversei com um homem outro dia e ele me
contou que, para piorar, agora também se sente estrangeiro em seu próprio país,
na África. - opina, ao JB, o inglês Peter Ford, analista político do
jornal The Christian Science Monitor. Segundo Ford, o que se viu nas
últimas duas semanas - jovens de ascendência africana promovendo uma baderna
generalizada em toda a França - foi o grito de uma geração de filhos e netos
daqueles africanos que De Gaulle quis transformar em franceses e que sofrem, de
certa forma, o mesmo que seus antepassados: são, oficialmente, cidadãos daquele
país, mas não têm nenhum objetivo real para se sentirem com tal de fato.
É também uma
geração que começou o ano protestando contra uma norma aprovada pelo Parlamento
e que deixou também indignados os meios acadêmicos. A chamada Lei de 23 de
Fevereiro de 2005 obriga os professores do país a enfatizarem o papel
''positivo'' que a França teve na África ''notadamente'' no Norte do
continente. Os protestos foram tantos que a medida, embora não tenha sido
oficialmente revogada, não ''pegou'' - o próprio presidente Jacques Chirac
teria se referido à aprovação com um sonoro palavrão, irritadíssimo, segundo
assessores. Mas botou uma lente de aumento na dificuldade que o país tem de
lidar com seu passado. Foi também em fevereiro desse ano que a nação pediu
desculpas oficiais à Argélia, sua ex-colônia, pelo chamado Massacre de Sétif,
ocorrido há 60 anos justamente ao Norte da África.
Em 8 de maio de
1945, quando o general Charles de Gaulle marchava em Paris comemorando a
rendição da Alemanha, os argelinos já tentavam se livrar do controle da França
e a população se organizava em protestos nas ruas. Naquele dia, moradores da
cidade argelina de Sétif fizeram uma marcha aos gritos de ''viva a
independência'', o que gerou violenta reação do exército francês. Um dos
primeiros a tombar foi um menino que carregava a bandeira da Argélia, Saal
Bouzid, que se transformou imediatamente no mártir da luta pela liberdade.
O Massacre de
Sétif só acabaria duas semanas depois e o resultado foram quase 45 mil
argelinos mortos, número que as primeiras estimativas oficiais colocaram em
1.500 - a última atualização fala em 20 mil. Também houve mortes entre
europeus:
Muitos desses
africanos pró-França foram fuzilados como traidores após a independência - mais
de 100 mil. E muitos dos que sobreviveram acabaram virando parte dos avós dos
jovens que infernizaram a vida do país nos distúrbios atuais, que atingiram 300
focos de conflito. Na década de 60, o país os recebeu em parte porque tinha uma
dívida de gratidão, em parte porque precisava.
- É preciso que se
diga que a França não abriu suas fronteiras só por generosidade. Foi também porque
precisava de homens para trabalhar - diz Bangha Wakai, de 35 anos, ativista
nascido em Camarões, outra ex-colônia, que morou naquele país antes de seguir
para os Estados Unidos, há sete anos.
O Massacre de
Sétif só foi chamado de ''tragédia imperdoável'' em fevereiro, quando foram
pedidas as desculpas formais. Os conflitos que levaram a Argélia à
independência só foram chamados de ''guerra'' pela França em 1999. Até então,
eram chamados de ''ações para manter a ordem''. Como escreveu o historiador francês
Claude Liauzu, quando um país falha em dizer a verdade, os filhos dos
imigrantes de hoje ''ficam desprovidos de passado''.
Conceito
de igualdade gera paradoxo
A
forma como a França lida, oficialmente, com as diferentes raças traz em si um
paradoxo.
- Esse caráter
universalista da cultura francesa não leva em conta a existência de raças e se
pretende igualitário, mas é, em última análise, dúbio. Quando você aplica isso
no sistema educacional, por exemplo, o resultado é que não leva em conta as diferentes
referências culturais desses jovens. É, de novo, a tentativa de impor a idéia
de que todos os que falam francês são franceses. - analisa, por telefone, o
professor Paul Silverstein, especialista em migração do Norte da África e
professor do Reed College, do Oregon, Estados Unidos.
Silverstein
lembra, ainda, que, no caso específico dos jovens descendentes de imigrantes
africanos da França, a desejada igualdade se perde instantaneamente quando
precisam procurar um emprego, por exemplo. Por força do que ele critica no
sistema educacional, os alunos terminam deixando a escola. Acabam, portanto,
perdendo a disputa no mercado de trabalho para os franceses brancos.
- Para piorar
ainda mais o quadro, temos de entender que, em muitos casos, a única relação que
essa geração tem com as coisas do Estado é com a polícia, em situações de
repressão. - acrescenta Silverstein.
O ativista
africano Bangha Wakai lembra que o fato de ter sido possível os jovens terem
provocado os distúrbios é outro paradoxo.
- É até irônico,
mas esses tumultos puderam acontecer aqui justamente porque todos têm o direito
de protestar.
Os 20
milhões de colonos internos da Europa
É
consenso que o fato de muitos dos imigrantes africanos na França serem
muçulmanos não é, nesse caso, o fator determinante do racismo. Mas ajuda a
acirrá-lo, especialmente numa Europa assustada na era da guerra ao terror.
As estatísticas
também servem para obrigar o continente a repensar suas relações com imigrantes
e se preparar para o futuro. Daqui a 20 anos, a comunidade muçulmana da Europa
vai ser o dobro do que é hoje, segundo o Conselho de Inteligência Nacional da
França. Estima-se que entre 15 milhões e 20 milhões de islâmicos tenham feito
do continente sua terra atualmente, ou 4% a 5% da população do Velho Mundo. Na
França, são 6 milhões, ou 10% da população. Em 2025, serão a maioria nos países
mediterrâneos.
Os muçulmanos já
são a maioria dos estrangeiros que vivem na Europa ocidental, um fluxo que teve
início após a II Guerra Mundial. Mas, acreditam alguns especialistas, se nos
Estados Unidos essa população está espalhada e etnicamente fragmentada, nos
países europeus encontra-se em aglomerados, como argelinos na França (nação com
a maior proporção de islâmicos), marroquinos na Espanha, turcos na Alemanha e
paquistaneses no Reino Unido, onde o grupo representa quase metade dos
imigrantes.
Como conseqüência
da história, do crescimento demográfico e da política, entretanto, toda a
Europa ocidental passou a ser abrigo de muçulmanos insatisfeitos por serem
cidadãos apenas no papel. A região virou uma espécie de ''colônia interna''
para um número de ''colonos'' equivalente à população da Síria.