ESPECIAL
14 de novembro de 2005
Mário Gibson Barboza
Para
que servem as Nações Unidas?
Além do Fato / Diplomacia
Embaixador, Ex-Ministro das Relações Exteriores
Neste
ano em que se comemora o 60º aniversário das Nações Unidas, cabe perguntar,
diante das dúvidas que muitos formulam sobre a necessidade de sua existência:
para que serve a ONU? E por que não resolve os grandes problemas que afligem a
Humanidade? Por que não reina a paz mundial que se esperava obter com a sua
criação? Por que não se extingue a miséria a que se encontram submetidos
milhões de criaturas humanas? Por que, enfim, a Organização das Nações Unidas
não torna realidade a utopia que se pretendeu criar
Antes de tudo, por
que o 24 de outubro marca o nascimento da ONU? É uma data arbitrária, proposta
pelo Embaixador Gilberto Amado em reunião da 6ª Comissão de uma Assembléia
Geral, quando se procurava escolher tal data. Nessa ocasião Gilberto Amado
avançou a proposta de 24 de outubro, defendendo-a com a determinação e o
arroubo que caracterizavam sua rica personalidade. Como ninguém questionou a
proposta, foi aprovada por unanimidade. Na função de Representante Substituto
(Ministro Conselheiro) da nossa Delegação Permanente, intrigado pela escolha daquela
data, perguntei-lhe a razão. Respondeu-me: “é o aniversário de Raul Fernandes e
da criação do meu Estado de Sergipe! Aí está! Criou-se, assim, mais um elo
especial entre o Brasil e a ONU. Só isto já justificaria que nosso país se
sentisse especialmente vinculado à organização.
Na verdade, o
Brasil começou sua ligação com o futuro projeto de um organismo destinado
precipuamente a manter a paz e a segurança internacionais ao enviar uma força
expedicionária à Europa, para juntar-se ao exército americano e combater, ombro
a ombro, com seus aliados, o nazi-fascismo. E o fez com enormes sacrifícios,
sem nada solicitar em retorno, com grandes perdas de vida, vendo quase toda a
frota mercante torpedeada por submarinos italianos e alemães e arrendando o que
dela restou aos Estados Unidos, pelo preço simbólico de US$ 1 ao ano, além de
fixar um câmbio especial para as compras americanas no Brasil, etc. Enfim, foi
grande o nosso esforço. Contribuímos, na medida de nossas possibilidades, para
a vitória final dos aliados, dos quais nos tornamos um deles.
Assim, quando se
desenhou no horizonte do conflito a alvorada da vitória na Europa e Franklin
Roosevelt planejou com Winston Churchill a criação de uma organização pela paz
e a segurança mundiais, o Brasil logo foi incluído no grupo encarregado de
planejar a reunião a ser convocada para essa finalidade. Uma utopia?
Certamente, mas a meta final a que deve aspirar a Humanidade. E o que se tem a
perder quando se procura realizar uma utopia? Nada, ganhando-se, pelo menos, o
caminho percorrido para o fim, que permanecerá como um ideal a ser um dia
conquistado.
Assim, com a
guerra ainda sendo lutada na Europa e no Oriente, pelo menos no Velho
Continente foi convocada, após uma reunião preparatória
A questão
principal na reunião foi a criação de um Conselho de Segurança com membros
permanentes e rotativamente eleitos, sendo que aos primeiros era assegurado o
direito de veto dos projetos. Os cinco permanentes seriam os Estados Unidos, a
União Soviética, a Grã Bretanha, a França e a China (então de Chiang Kai Shek e
depois de Mao Tsé Tung, com a vitória da revolução comunista no país).
Tratava-se, claro,
de um dispositivo injusto e aberrantemente discriminatório. O Brasil, com
alguns outros poucos, lutou contra esse injustificável privilégio mas teve de
render-se à realidade do poder. Sem o veto não haveria a ONU, conforme
abertamente declarado pelos beneficiados pelo dispositivo. Para mim, foi ali,
na Conferência convocada para estabelecer a paz, que se iniciou a Guerra Fria.
Através de
desencontros, desentendimentos e hostilidades recíprocas entre as duas maiores
potências, criou-se a Organização das Nações Unidas e escreveu-se sua Carta em
junho de 1945. Durante a Conferência terminou a guerra na Europa, com o
suicídio de Hitler. Na Ásia continuava o conflito, que só acabou meses após o
término da Conferência de São Francisco, com a bomba de Hiroshima.
Se recordo esses
fatos é para ressaltar a necessidade inadiável, após 60 anos, de se reformar a
Carta das Nações Unidas, escrita, como o foi nos estertores da II Guerra. E
que, portanto, acha-se hoje obsoleta em muitas de suas provisões. E para que
serve a ONU? Eu a considero uma organização indispensável para introduzirmos
alguma ordem na vida internacional e continuarmos a caminhada para a realização
dessa utopia que é a paz permanente. De resto, se não dispusermos da ONU o que
colocaremos em seu lugar? Deixaremos um vácuo que perpetuará a barbárie, agora
com instrumentos, cada vez mais aperfeiçoados, de alta tecnologia, capazes de
destruir o planeta? Não! Reformemos a ONU, adaptando-a aos tempos e às
realidades atuais. Mas não nos esqueçamos de que não é um governo mundial, nem
poderá jamais sê-lo.
Quanto à acusação
de inoperância, é um juízo equivocado. Passemos em revista algumas das
realizações da organização, através dos anos:
Presidiu e
influenciou no dificílimo processo de descolonização. Foi nas Assembléias
Gerais e Comissões da ONU que as potências colonizadoras e os territórios
ocupados debateram seus problemas e obtiveram soluções pacíficas e duradouras.
Criou o Estado de
Israel, numa Assembléia Especial presidida, com extrema habilidade e energia,
por Oswaldo Aranha.
Dirige,
permanentemente, exaustivas missões assistenciais em países com populações
desvalidas.
Lembremo-nos
também do papel que a ONU desempenhou e desempenha ainda, como o maior e mais
importante fórum mundial, não só por ocasião de Assembléias Gerais, mas no ano
inteiro, para o encontro de personalidades internacionais e de facções muitas
vezes inimigas ou adversárias, que freqüentemente resolvem graves problemas
fora da agenda oficial e dos holofotes publicitários, no terreno imparcial e
neutro que a ONU oferece.
Alega-se que a ONU
pouca ou nenhuma participação política tem na solução dos maiores problemas. É
possível. Mas uma organização internacional não é entidade abstrata, um ser de
razão, e sim a soma da vontade política de seus membros. Se estes não recorrem
aos seus serviços, ou a seus instrumentos, a culpa não é da ONU.
Estamos assistindo
a uma situação de trágicas e perigosas dimensões, por não terem sido usados os
instrumentos de que dispõe a ONU, diria, mesmo, por terem desprezado e violado
sua Carta. A tragédia da guerra do Iraque que, previsível, tornou-se um
terrível dilema para os EUA, pelo fato de haver o presidente George W. Bush
enveredado por uma política unilateralista, desprezando a ONU. Política essa
que representa lamentável e perigoso retrocesso no Direito Internacional e nas
relações entre as nações.
Não parece haver
dúvida quanto ao dilema em que se encontram hoje os EUA, que eles próprios
provocaram: a) se retirarem suas tropas do país, inevitavelmente este cairá
numa guerra civil de conseqüências inimagináveis, que poderá contaminar todo o
Oriente Médio: b) se prolongarem indefinidamente a ocupação, o efeito será que
a resistência da população aumentará, apesar da crônica desunião entre xiitas,
sunitas e curdos, pois nenhum povo tolera a ocupação do seu território por
tropas estrangeiras.
A par disso – e
para agravar o problema – registre-se o sacrifício crescente dos boys
americanos. Hoje admite-se que já sejam 2.400, mas certamente o número de
iraquianos é superior. São jovens que pereceram por uma causa indefinida, por
uma confessada mentira oficial sobre armas de destruição total, num país que o
americano médio nem sabe mesmo onde fica. Até quando a opinião pública tolerará
esse sacrifício da sua mocidade? Lembremo-nos do Vietnã, onde as tropas não
foram derrotadas pelo exército vietnamita e sim pelas manifestações de protesto
E não esqueçamos
que a ONU, mesmo tendo sido ultrapassada na invasão do Iraque, fez-se presente
em Bagdá via um abnegado grupo de funcionários, chefiados por nosso compatriota
Sergio Vieira de Melo, cuja bravura e sentido de responsabilidade valeram-lhe o
sacrifício da própria vida.
Penso que só uma
ação conjunta da coletividade internacional poderá ajudar os EUA a saírem da
armadilha que criaram. E salta aos olhos que essa ação conjugada só poderá ser
proporcionada pela ONU. Mas a ONU de que falo é uma com a Carta reformada,
fortalecida pelo apoio da superpotência que foi, no passado, seu mais
importante suporte, os Estados Unidos. Sem isso, em seu próprio benefício,
qualquer esforço será em vão.
E qual o papel do
Brasil? Examinando-se de um lado nosso continuado e positivo desempenho, no
passado e no presente, na ONU; e, por outro lado, nossa patente necessidade de
manter as melhores relações com os EUA, relações apenas condicionadas pelo que
possa representar a defesa do interesse nacional, temos possibilidades de
exercer papel mediador numa reaproximação entre os EUA e a ONU. É essencial e
urgente, em benefício da paz e segurança internacionais, que se realize essa
reaproximação. E o Brasil encontra-se em posição privilegiada. Nossa diplomacia
tem crédito, experiência e competência para o papel, com o cuidado, a prudência
e a tenacidade que exige.