ESPECIAL

 

02 de dezembro de 2005

O misterioso plano para bombardear a Al-Jazeera

A existência de documentos só chegou ao conhecimento do público por causa da grave decisão do governo britânico de invocar a lei especial de proteção a segredos de Estado (Official Secrets Act). Não fosse isso, o mundo ainda estaria ignorando que o presidente George W. Bush planejou, sim, um ataque militar covarde à sede central, em Qatar, da rede árabe de televisão Al-Jazeera.

Notem bem: esse é caso típico de vazameno de "whistle blower" - de uma fonte anônima de dentro do governo, e não informação "plantada" em benefício próprio pela cúpula do poder (caso Judith Miller). Vazava-se a transcrição de conversa na qual Bush comunicara ao premier Tony Blair seu plano para bombardear um veículo de mídia cujo pecado é não omitir o que incomoda os invasores do Iraque.

O diálogo Bush-Blair ocorreu a 16 de abril de 2004, na Casa Branca, em meio à operação militar das tropas de ocupação no Iraque contra os rebeldes de Faluja. Ante a suspeita na semana passada de que as minutas tinham sido vazadas, Blair mandou o seu procurador geral avisar, por e-mail, toda a mídia britânica, de que se algum veículo ousar publicar qualquer coisa será enquadrado na lei draconiana.

Um obsessivo alvo militar

O efeito do aviso do procurador geral, no entanto, acabou sendo uma espécie de tiro pela culatra. Em vez de fazer a mídia calar-se, submissa, chamou mais atenção para o documento ainda misterioso - praticamente uma confirmação de que o fato realmente aconteceu, conforme escreveram quinta-feira os jornalistas Michael Isikoff e Mark Hosenball no website da revista americana "Newsweek".

"Newsweek" online é uma exceção. A mídia dos EUA tenta ignorar o caso, apesar de sua grande vantagem sobre a britânica nessa cobertura: não está sujeita às duras leis britânicas que restringem o livre fluxo da informação. A primeira reação do governo Bush foi rejeitar a notícia como "absurda". Depois vieram remendos. Um deles admitiu que Bush falara em "bombardear" a Al-Jazeera, mas "só como piada".

Seria uma piada de extremo mau gosto, já que escritórios da
Al-Jazeera em Bagdá e Afeganistão tinham sido deliberadamente atacados antes por tropas do Pentágono. Um repórter foi morto em Bagdá, num episódio relatado no excelente documentário "Control room", de Jehane Noujain, que teve a colaboração preciosa (no roteiro, na montagem e na produção executiva) da jovem e talentosa brasileira Júlia Bacha.

O horror do governo Bush à Al-Jazeera é conhecido. Até o "New York Times" já se referiu aos acalorados debates internos entre autoridades bushistas sobre "o que fazer" com essa rede. Os diferentes governos instalados em Bagdá pelas tropas de ocupação controlam seus repórteres. Eles são às vezes monitorados de perto e até proibidos de trabalhar. Alguns já estiveram presos em Abu Ghraib e Guantánamo.

A brincadeirinha de mau gosto

As diferentes versões da Casa Branca para o diálogo Bush-Blair seriam cômicas, se o assunto não fosse trágico. No último remendo, disse o porta-voz Scott McClellan: "Qualquer sugestão de que nos engajaríamos nesse tipo de atividade é simplemente absurdo". Mas ele se recusou, segundo "Newsweek", a responder outras perguntas. Uma delas era se Bush disse ou não disse o que foi atribuído a ele no documento.

O chefe da sucursal londrina de "Newsweek", conforme o relato de Isikoff e Hosenball, ouviu de alta fonte do governo Blair (sob o compromisso de não ser identificada, dada a delicadeza do assunto) a afirmação de que a ameaça de Bush à Al-Jazeera foi realmente séria. "Não creio que Tony Blair tenha pensado que se tratava de piada", acrescentou a fonte.

Na batalha de Faluja o que enfurecia Bush e Blair na cobertura da Al-Jazeera eram "imagens inflamatórias da luta por trás das linhas inimigas, como cenas mostrando soldados americanos mortos". Bush quer mostrar uma "guerra limpa". Quando a mídia ousa ir além disso, fica clara sua obsessão de impedir que o público nos EUA conheça a realidade de sua guerra, que já deixou mais de 2.100 americanos mortos.

Confissão de falência - e submissão

Ante ameaças ostensivas ou veladas do governo Bush, a mídia americana opta por ignorar notícias e informações "controvertidas". O assalto a Faluja foi exposto com sua crueza e brutalidade na Al-Jazeera, mas na mídia americana foi sanitizado, para não assustar o público interno. E como consegue manter sua própria mídia sob controle, Bush acha que os demais veículos, até os árabes, têm de se submeter.

Revelado o "plano" do bombardeio da Al-Jazeera, a mídia dos EUA desqualificou a notícia a pretexto de ter sido dada pelo "Daily Mirror", crítico da guerra. Mas o jornal fora cuidadoso. Informara previamente ao governo Blair que tivera acesso àquele documento e que pretendia publicá-lo. Foi quando o primeiro-ministro ameaçou toda a mídia -
confirmação indireta da autenticidade do documento.

A indiferença dos veículos dos EUA soa como confissão de falência - ou submissão. Jornais do resto do mundo publicam a notícia, com Bush no papel central. Até quando a mídia dos EUA conseguirá fingir que o fato não aconteceu? Ao fugir da informação para não embaraçar o desastrado presidente, cada veículo parece determinado a se tornar uma nova Fox News.

 

Voltar