ESPECIAL
02 de dezembro de 2005
FLÁVIO AGUIAR
Dirceu, entre metáforas e metonímias
Entre metáforas e metonímias, consumou-se a farsa trágica da cassação de José Dirceu, expulso da Câmara não pelos erros que cometeu, mas como símbolo de um projeto de esquerda que se enredou no labirinto da cordialidade brasileira.
Uma das coisas mais difíceis nos estudos da
linguagem é fixar a diferença entre metáfora e metonímia. Ambas constituem
processos básicos na construção de imagens e de símbolos, isto é, imagens
investidas de valor (positivo ou negativo). Uma metáfora se constitui por um
processo de “substituição”, ou espelhamento, de palavras (no caso da linguagem
verbal), baseado numa analogia por semelhança. Já uma metonímia se constitui
por um processo baseado numa contigüidade; esta contigüidade pode ser de causa
e efeito, de continente e conteúdo, de lugar e produto, etc. Vejamos alguns
exemplos.
Certos jornalistas quiseram transformar o coió que agrediu José
Dirceu a bengaladas numa metáfora da opinião pública brasileira. Na verdade,
ele se fez uma metonímia do animus cassandi das oposições e áreas
próximas no Congresso Nacional, tomadas por faniquitos ao se verem contrariadas
por considerações feitas no Supremo Tribunal Federal sobre o festival de
ofensas a garantias constitucionais que vêm cometendo no great show em
que as CPIs e o processo de cassação de José Dirceu se transformaram. Quer
dizer, o agressor foi produto desse clima, açulado pela imprensa conservadora,
e não espelho de uma suposta opinião pública, ainda que haja muita gente que
goste de decidir tais questões a bengaladas, senão a choques elétricos, como no
saudoso tempo da ditadura militar.
Mas se deve considerar que o gesto covarde do agressor foi uma
metáfora do que estava por vir: sem provas contra ele, José Dirceu foi covardemente
linchado no dia seguinte por deputados com mais interesse nas votações de 2006
do que na apuração dos ilícitos cometidos, já que nos procedimentos das CPIs
muito se acusa, pouco se investiga, quase nada se comprova. Como prova de
covardia, muitos deputados votaram e foram embora antes da apuração. Deram sua
facada no simbolicamente morto, tiraram sua casquinha, e deram as costas ao
insepulto.
Também houve claro processo metonímico, inspirador de uma
sinédoque (substituição do todo pela parte), quando o mesmo jornalismo
conservador quis apresentar a contrariedade raivosa das oposições diante dos
ministros do Supremo que criticaram os procedimentos inaceitáveis da Comissão
de Ética(!) contra Dirceu, como uma “crise entre poderes”. Substituíram “oposições”
por “Congresso Nacional”, lastreando a conclusão implícita de que, ao discutir
garantias individuas de um acusado, os ministros do Supremo estavam se metendo
onde não deviam, isto é, estavam atrapalhando o show.
Passemos a outros exemplos. Faz tempo que o economês conservador
constrói o conceito de “PIB” como uma metáfora da nação. O PIB cresce bem, a
nação vai bem; o PIB decresce, a nação vai mal etc. É claro que se deve medir o
PIB, ainda que se pretenda que ele meça mais do que na verdade mede. Mas essa
construção metafórica impede que se tenha um descortínio das retóricas que
aprisionam a política no brete da economia, onde ela (a política) será sempre
sacrificada, enquanto arte de discernir o possível, não só o provável, ou ainda
a mesmice do mesmo.
Na verdade essa maquiação do PIB em metáfora da nação é uma
metonímia de economistas e jornalistas conservadores que fazem uma leitura
desse conceito historicamente datado (com o de PNB) destinada a tornar
“natural” a visão da “saúde” de uma nação sem levar em conta a sua particular
estrutura de desigualdade. No fundo o procedimento repete ad nauseam o
argumento de que a única maneira de que para repartir melhor o bolo é
necessário primeiro fazê-lo crescer, só que neste tipo de pensamento o bolo deve
crescer sem parar, e portanto, nunca ser melhor dividido.
Como sugeriu Hazel Anderson em entrevista à TV Carta Maior
tempos atrás, saber o que medir é fundamental para discernir políticas
econômicas, e ao cairmos na ditadura do PIB estamos deixando de prestar atenção
ao essencial, isto é, se a vida das pessoas melhorou ou piorou. Neste sentido,
é mais importante a discussão sobre se a tendência na queda da desigualdade na
distribuição de renda observada em 2004 é apenas sazonal ou se é duradoura, do
que a discussão sobre o que significa a desaceleração no crescimento do PIB
observada no trimestre.
Nestes dias o presidente Lula deu mostras também do quanto é
prisioneiro desse jogo perverso de metáforas e metonímias. Ao comentar os dados
do IBGE que apontavam a diminuição da miséria e da desigualdade no país, ao
invés de projetar o futuro, pôs-se a justificar a política econômica pregressa,
como se estivesse a ir para a frente olhando no espelho retrovisor. Deveria ele
ler o grafite mexicano lembrado por Marco Aurélio Garcia no recente seminário
da fundação Perseu Abramo sobre o “O PT e o Brasil”: “Chega de realizações;
queremos promessas”.
Nessa briga de metáforas e metonímias, inteira razão tem a
ministra Dilma Roussef, que me faz lembrar as Anas Terras de Erico Verissimo
(isto é uma sinédoque, tomando o plural pelo singular). Perversamente descrita
como pretendendo liderar a gastança irresponsável, a ministra na verdade
golpeou duramente a monocordia do economês, num movimento cujo efeito pode ser
o de libertar dessas peias univocais a palavra do governo, devolvendo a ela a
possibilidade de criar novos símbolos para o futuro, ao invés de ridiculamente
ficar repetindo a mesmice do superávit primário projetado como panacéia
universal por uma década, isto sim um raciocínio rudimentar. Por esse lado
vê-se uma incapacidade total por parte do governo de comemorar o comemorável,
como a diminuição do principal da dívida, o que prova que ele viu, por todos
estes três longos anos, a comunicação como uma mera metonímia do marketing, e
sem muito sucesso.
Prosseguindo neste jogo de imagens perversas, vimos nesta semana
parte da imprensa transformar o “cresceu menos” do PIB em “queda”: isto já não
é nem metáfora nem metonímia, é sacanagem mesmo.
A todas essas, o Congresso Nacional vai dando mostras de ir
acolhendo as piores metáforas do pior Brasil, com a CPI da Terra votando a
incriminação do MST como terrorista, com o acolhimento das pressões assassinas,
disfarçadas de defesa da vida, contra a legalização do aborto etc. Enfim, desde
a derrota da emenda Dante de Oliveira pelas eleições diretas para Presidente da
República, não se via uma semana tão ruim no Congresso Nacional.
Buenas, entre metáforas e metonímias consumou-se a farsa trágica
da cassação de José Dirceu, que foi cassado não pelos erros que cometeu (e os
cometeu, ele mesmo admitiu), mas como um símbolo metafórico de um projeto de
esquerda que, é verdade, se enredou no labirinto da cordialidade brasileira,
dentro e fora do Congresso. No meio disso tudo, chamou-me a atenção a atitude
de vendetta do PSOL que, querendo apresentar-se como a metáfora de uma
nova esquerda, vai confirmando cada vez mais sua transformação numa metonímia
do PFL e do PSDB. Ou será metáfora? Ah, deixa pra lá.
Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São
Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.