ESPECIAL
30 de janeiro de 2006
Dom Pedro Casldáliga
Utopia necessária como o pão de cada dia
“Poesía necesaria como el pan de
cada día” diz o
poeta. Poesia e utopia rimam bem, e ambas nós são totalmente indispensáveis
para atravessarmos o túnel. Não aceitamos essa sociedade oficial que reduz a
vida humana a mercado ou, no melhor dos casos, se propõe o objetivo, sempre
adiado, de reduzir a fome à metade...
Estamos indignados e perplexos. Muitas vozes,
de muitos ângulos, confessam que estamos
Estar em crise, entretanto, não é
necessariamente uma desgraça. A crise é a febre do espírito. Onde há febre há
vida. Os mortos não têm febre.
Não se trata de ignorar a realidade. Mais
ainda: é preciso assumi-la e transformá-la, radicalmente. Agora já não mais nos
conformamos com proclamar que “outro mundo é possível”; proclamamos que é
fatível e o fazemos. A Agenda Latinoamericana Mundial, que estamos preparando
para o 2007, intitula-se precisamente “Exigimos e fazemos outra democracia”.
“Lá embaixo –com o povo- e à esquerda”, definem os zapatistas na “outra
campanha”. E já se tem anunciado que vamos “para o Socialismo do século XXI”,
com “a Humanidade como sujeito” da mudança.
A utopia é necessária porque a desigualdade
entre ricos e pobres aumenta, segundo a ONU, inclusive em paises do Primeiro
Mundo. Nossa América, segundo a OEA, é a região mais injusta, por essa
desigualdade sistemática. Há mais riqueza na Terra, mas há mais injustiça.
África tem sido chamada “o calabouço do mundo”, uma “Shoá” continental. 2,5
bilhões de pessoas sobrevivem, na Terra, com menos de 2 euros por dia e 25 mil
pessoas morrem diariamente de fome, segundo a FAO. A desertificação ameaça a
vida de 1,2 bilhão de pessoas numa centena de paises. Aos emigrantes lhes é
negada a fraternidade, o chão debaixo dos pés. EEUU constrói um muro de
Mas a Humanidade “se move”; e está dando
uma virada para a verdade e a justiça. Há muita utopia e muito compromisso
neste Planeta desencantado. Alguém já recordou que o Século XX “foi um imenso
cemitério de impérios: o britânico, o francês, o português, o holandês, o
alemão, o japonês e o russo”. Fica, balançando, o império estadunidense, que
vai cair também. América Latina se distancia da tutela dos Estados Unidos e
Ásia deu também as costas aos Estados Unidos, na primeira cúpula organizada
pela ASEAN. A UNESCO declarou Patrimônio da Humanidade a Diversidade Cultural.
O Século XXI –que já sabemos que será um século místico- será também o século
do Meio Ambiente. O diálogo ecumênico e o diálogo inter-religioso crescem em
vários níveis, como um novo paradigma da fé religiosa e da paz mundial. As
Igrejas, as Religiões, vão se encontrar necessariamente e terão de fazer a paz
para a paz do Mundo. Na Igreja Católica, dentro de uma monótona continuidade
oficial, que já se esperava, muitas comunidades e muitos coletivos de reflexão
teológica e de pastoral sabem ser simultaneamente fiéis e livres. Vamos
aprendendo a ser Igreja adulta, una e plural. Se rechaçamos a ditadura do
relativismo, também rechaçamos a ditadura do dogmatismo. Não permitiremos que o
Concilio Vaticano II seja um “futuro esquecido”; e até urgimos o processo de
preparação de um novo Concilio, verdadeiramente ecumênico, que contribua a
partir da fé cristã na tarefa maior de humanizar a Humanidade.
Aqui, em casa, na Prelazia de São Félix do
Araguaia, seguimos caminhando, agora com o bispo Dom Leonardo. Desafios não nos
faltam. Continua sem solução o acampamento frente à fazenda Bordolândia, já
desapropriada; a Gleba Liberdade, de acampados também, há quase 3 anos
esperando; e a aldeia Xavante Marawatsede com treze anos de tensão. (As políticas
agrária e indigenista do nosso Brasil estão atoladas, por “respeito” ao
latifúndio, ao agronegócio e à bancada ruralista). Na Assembléia Pastoral deste
ano reafirmamos as três prioridades da nossa Igreja particular: formação,
autonomia, pastoral sócio-política. Estamos nos preparando para a grande
Romaria dos Mártires da Caminhada,
Fazer memória do martírio é vital para cada
povo, vital para a Igreja de Jesus. Se perdemos a memória dos mártires,
perdemos o futuro dos pobres.
Eu, no meu sossego de aposentado,
experimentando “a pobreza biológica” com as suas limitações. Em compensação
tenho podido editar alguns livros, como filhos da velhice. Permite-se um
comercial?: “Murais da Libertação”, com Cerezo Barredo, ed. Loyola; “Orações da
Caminhada”, ed. Verus; “Cuando los dias dan que pensar”, ed. PPC; “Cartas
Marcadas”, ed. Paulus/Brasil; “Con Jesús, el de Nazaret”, com José Luiz Cortés,
ed. PPC; “Los ojos de los pobres”, com Juan Guerrero, em castelhano e em
catalão, ed. Ediciones 62.
Sigamos editando utopia, compromisso,
transparência, vida. E recordemos que a utopia deve ser verificada na práxis
diária, que “a esperança somente se justifica naqueles que caminham” e que “nos
é dada para servir aos desesperançados”. Para este serviço penso que hoje nos é
pedido, sobretudo, um testemunho coerente, uma proximidade samaritana, uma
presença profética.
A todos, a cada um e a cada uma a quem devo
amizade, gratidão e carta, um forte abraço na paz militante do Evangelho.
Pedro Casaldáliga