T E X T O S
29 de agosto de 2005
Eduardo Galeano
Esta é uma modesta contribuição à guerra do
Bem contra o Mal. Entre os diversos semblantes do Príncipe das Trevas, só estão
os demônios que existem há muito, muito tempo, e que há séculos ou milênios
continuam ativos no mundo
A experiência prova que a ameaça do inferno é sempre mais eficaz
que a promessa do Céu. Benditos sejam os inimigos
O Demônio é mulçumano
Dante já sabia que Maomé era terrorista. Por alguma razão o
colocou em um dos círculos do inferno, condenado à pena de prisão perpétua. “O
vi partido”, celebrou o poeta em A Divina Comédia, “desde a barba até a
parte inferior do ventre...”. Mais de um Papa já tinham comprovado que as
hordas muçulmanas, que atormentavam a Cristandade, não eram formadas por seres
de carne e osso, eram um grande exército de demônios que aumentava quanto mais
sofria com os golpes das lanças, das espadas e dos arcabuzes.
Hoje em dia, os mísseis fabricam muito mais inimigos que os inimigos das
entranhas. Porém, que seria de Deus, afinal de contas, sem inimigos? O medo
impera, as guerras existem para desbaratar o medo. A experiência prova que a
ameaça do inferno é sempre mais eficaz que a promessa do Céu. Benditos sejam os
inimigos. Na Idade Média, cada vez que o trono tremia, por bancarrota ou fúria
popular, os reis cristãos denunciavam o perigo muçulmano, desatavam o pânico,
lançavam uma nova Cruzada, o santo remédio. Agora, há pouco tempo, George W.
Bush foi reeleito presidente do planeta graças o oportuno aparecimento de Bin
Laden, o grande Satã do reino, que as vésperas das eleições anunciou, pela
televisão, que ia comer todas as crianças.
Lá pelo ano de 1564, o especialista em demonologia Johann Wier teria contado os
demônios que estavam trabalhando na terra, a tempo integral, a favor da
perdição das almas cristãs. Eram sete milhões quatrocentos e nove mil cento e
vinte sete, que agiam divididos em setenta e nove legiões.
Muita água fervente passou, depois daquele censo, debaixo das pontes do
inferno. Quantos são, hoje em dia, os enviados do reino das trevas? As artes do
teatro dificultam as contas. Estes falsos continuam usando turbantes, para
ocultar seus cornos, e longas túnicas tampam os rabos do dragão, suas asas de
morcego e a bomba que carregam debaixo do braço.
A colossal carnificina organizada por Hitler culminou uma longa
história de perseguição e humilhação
O Demônio é judeu
Hitler não inventou nada. Há mil anos, os judeus são os
imperdoáveis assassinos de Jesus e os culpados de todas as culpas. Como? Jesus
era judeu? E judeus eram também os doze apóstolos e os quatro evangelistas? O
que você disse? Não pode ser. As verdades reveladas estão além das dúvidas e
não exigem mais evidências do que a própria existência. As coisas são como se
diz que são, e se diz porque se sabe: nas sinagogas o Demônio dá aulas, e os
judeus desde há muito se dedicam a profanar hóstias e a envenenar águas bentas.
Por causa deles aconteceram bancarrotas econômicas, crises financeiras e
derrotas dos militares; são eles que trouxeram a febre amarela e a peste negra
e todas as outras pestes.
A Inglaterra os expulsou, nenhum escapou, no ano de 1290, porém isso não
impediu Chaucer, Marlowe e Shakespeare, que nunca tinham visto um judeu, fossem
obedientes à caricatura tradicional e reproduzissem personagens judeus segundo
o modelo satânico de parasita sanguessuga e o avaro usurário. Acusados de
servir ao Maligno, estes malditos andaram durante séculos de expulsão em
expulsão e de matança em matança. Depois da Inglaterra foram sucessivamente
expulsos da França, Áustria, Espanha, Portugal e de numerosas cidades suíças,
alemães e italianos. Os reis católicos Izabel e Fernando expulsaram os judeus e
também os muçulmanos porque sujavam o sangue. Os judeus haviam vivido na
Espanha durante treze séculos. Levaram com eles as chaves de suas casas. Há
quem as guardem ainda. Nunca mais voltaram.
A colossal carnificina organizada por Hitler culminou uma longa história de
perseguição e humilhação. A caça aos judeus tem sido sempre um esporte europeu.
Agora, os palestinos, que jamais a praticaram, pagam a culpa.
“Toda a bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é
insaciável”
O Demônio é mulher
O livro Malleus Maleficarum, também chamado O martelo
das bruxas, recomenda o mais ímpio exorcismo contra o demônio que tem seios
e cabelos compridos.
Dois inquisidores alemães, Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, o escreveram, a
pedido do Papa Inocêncio VIII, para enfrentar as conspirações demoníacas contra
a Cristandade. Foi publicado pela primeira vez em 1486 e até o final do século
XVIII foi o fundamento jurídico e teológico dos tribunais da Inquisição em
vários países.
Os autores afirmavam que as bruxas, do harém de Satanás, representavam as
mulheres em estado natural: “Toda bruxaria provém da luxúria carnal, que nas
mulheres é insaciável”. E demonstravam que “esses seres de aspecto belo, cujo
contato é fétido e a companhia mortal” encantavam os homens e os atraíam com
silvos de serpentes, rabos de escorpião, para aniquilá-los. Os autores advertiam
aos incautos: “A mulher é mais amarga que a morte. É uma armadilha. Seu
coração, uma rede; e correias, seus braços”.
Esse tratado de criminologia, que enviou milhares de mulheres às fogueiras da
Inquisição, aconselhava que todas as suspeitas de bruxaria fossem submetidas à
tortura. Se confessassem, mereceriam o fogo. Se não confessassem também, porque
só uma bruxa, fortalecida por seu amante, o Demônio, nos conciliábulos das
bruxas, poderia resistir a semelhante suplício sem soltar a língua.
O papa Honório III sentenciara que o sacerdócio era coisa de machos: - As
mulheres não devem falar. Seus lábios têm o estigma de Eva, que provocou a
perdição dos homens.
Oito séculos depois, a Igreja Católica continua negando o púlpito às filhas de
Eva.
O mesmo pânico faz com que os mulçumanos fundamentalistas as mutilem o sexo e
lhes cubram a cara.
E o alívio pelo perigo conjurado leva os judeus mais ortodoxos a começar o dia
sussurrando: “Graças, Senhor, por não me ter feito mulher”.
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Em nenhum lugar do mundo se levou em conta os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de sê-lo
O Demônio é homossexual
Desde 1446, os homossexuais iam para a fogueira em Portugal.
Desde 1497 eram queimados vivos na Espanha. O fogo era o destino merecido pelos
filhos do inferno, que surgiam do fogo.
Na América, ao contrário, os conquistadores preferiam jogá-los aos cachorros.
Vasco Núnez de Balboa, que entregou muitos deles para a refeição dos cães,
acreditava que a homossexualidade era contagiosa. Cinco séculos depois, ouvi o
Arcebispo de Montevidéu dizer o mesmo. Quando os conquistadores apontaram no
horizonte, só os astecas e os incas, em seus impérios teocráticos, castigavam a
homossexualidade com a pena de morte. Os outros americanos a toleravam e em
alguns lugares a celebravam, sem proibição ou castigo.
Essa provocação insuportável devia desencadear a cólera divina. Do ponto de
vista dos invasores, a varíola, o sarampo e a gripe, pestes desconhecidas que
matavam índios como moscas, não vinham da Europa, mas sim do Céu. Assim, Deus
castigava a libertinagem dos índios que praticavam a anormalidade com toda a
naturalidade.
Nem na Europa, nem na América, nem em nenhum lugar do mundo se levou em conta
os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de sê-lo.
Nada sabemos dos longínquos tempos e pouco ou nada sabemos dos tempos de agora.
Na Alemanha nazista, estes “degenerados culpados de aberrante delito contra a
natureza” eram obrigados a exibir a estrela amarela. Quantos foram para os
campos de concentração? Quantos lá morreram? Dez mil? Cinqüenta mil? Nunca se
soube. Ninguém os contou, quase ninguém os mencionou. Tampouco se soube quantos
foram os ciganos exterminados.
No dia 18 de setembro de 2002, o governo alemão e os bancos suíços resolveram
“retificar a exclusão dos homossexuais entre as vítimas do Holocausto”. Levaram
mais de meio século para corrigir essa omissão. A partir dessa data os homossexuais
que tinham sobrevivido em Auschwitz e em outros campos, se é que ainda haja
algum vivo, puderam reclamar uma indenização.
Os conquistadores cumpriram a missão de devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia usurpado
O Demônio é índio
Os conquistadores descobriram que Satã, quando expulso da
Europa, tinha encontrado refúgio na América. Nas ilhas e nas praias do mar do
Caribe, beijadas dia e noite por seus lábios flamejantes, habitadas por seres
bestiais que andavam nus, tal como o Demônio os havia colocado no mundo, que
cultuavam o sol, a terra, as montanhas, os mananciais e outros demônios
disfarçados de deuses, que chamavam de jogo ao pecado carnal e o praticavam sem
horário nem contrato, que ignoravam os dez mandamentos e os sete sacramentos e
os sete pecados capitais, que não conheciam a palavra pecado nem temiam o
inferno, que não sabiam ler nem tinham nunca ouvido falar do direito de
propriedade, nem de nenhum direito e que, como se tudo isso fosse pouco, tinham
o costume de comerem uns aos outros. E crus.
A conquista da América foi uma longa e difícil tarefa de exorcismo. Tão
arraigado estava o Demônio nestas terras, que quando parecia que os índios se
ajoelhavam devotamente ante a Virgem, estavam na realidade adorando a serpente
que ela amassava com o pé; e quando beijavam a Cruz não estavam reconhecendo ao
Filho de Deus, mas estavam celebrando o encontro da chuva com a terra.
Os conquistadores cumpriram a missão de devolver a Deus o ouro, a prata e outras
várias riquezas que o Demônio havia usurpado. Não foi fácil recuperar o
tesouro. Ainda bem que de vez em quando recebiam alguma pequena ajuda de lá de
cima. Quando o dono do inferno preparou uma emboscada em um desfiladeiro, para
impedir a passagem dos espanhóis em busca da prata de Cerro Rico de Potosi, um
arcanjo baixou das alturas e lhe deu uma tremenda surra.
Supunha-se que
a leitura da Bíblia podia facilitar a viagem dos africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa esqueceu de
ensiná-los a ler
O pânico diante da perda do emprego é um dos medos mais poderosos entre todos
os medos que nos governam nestes tempos de medo. E o imigrante está sempre
disponível para ser acusado como responsável pelo desemprego, a queda do
salário, a insegurança pública e outras temíveis desgraças.
Em outros tempos, a Europa distribuía para o mundo soldados, presos e
camponeses mortos de fome. Estes protagonistas das aventuras coloniais passaram
à história como agentes viajantes de Deus. Era a Civilização lançada nos braços
da barbárie.
Agora a viagem se faz na contramão. Os que chegam, ou tentam
chegar do sul em direção ao norte, não trazem nenhuma faca entre os dentes nem
fuzil no ombro. Vêm de países que foram oprimidos até a última gota de seu sugo
e não têm a intenção de conquistar nada além de um trabalho ou trabalhinho.
Esses protagonistas das desventuras parecem, muito mais, mensageiros do
Demônio. É a barbárie que toma de assalto a Civilização.
Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos
O Demônio é pobre
Se lambem enquanto você come, espiam enquanto você dorme: os
pobres espreitam. Em cada um se esconde um delinqüente, talvez um terrorista.
Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos. Nada de novo. Tem sido
assim desde quando os donos de tudo não conseguem dormir e os donos de nada não
conseguem comer.
Submetidas a um acossamento durante milhares de anos, as ilhas da decência
estão encurraladas pelos turbulentos mares da vida desgraçada. Rugem as ondas
sucessivas que forçam viver em sobressalto perpétuo. Nas cidades de nosso
tempo, imensos cárceres que prendem os prisioneiros ao medo, as fortalezas
dizem ser casas e as armaduras simulam ser trajes.
Estado de sítio. Não se distraia, não baixe a guarda, desconfie: você está
estatisticamente marcado, mais cedo ou mais tarde terá que sofrer algum
assalto, seqüestro, violação ou crime. Nos bairros malditos espreitam, ocultos,
remoendo invejas, tragando rancores, os autores de sua próxima desgraça. São
vagabundos, pobres diabos, bêbados, drogados, carne de cárcere ou bala, pessoas
sem dentes, sem rumo e sem destino.
Ninguém os aplaude, porém os ladrões de galinha fazem o que podem imitando,
modestamente, os mestres que ensinam ao mundo as fórmulas do êxito. Ninguém os
compreende, porém eles aspiram serem cidadãos exemplares, como esses heróis de
nosso tempo que violam a terra, envenenam o ar e a água, estrangulam salários,
assassinam empregos e seqüestram países.
(Trad.: Celeste Marcondes)
* Escritor uruguaio, autor, entre outros, de De Pernas pro Ar: A Escola do Mundo ao Avesso, Ed. L&PM, 1999.