T E X T O S
30 de janeiro de 2006
Eduardo Galeano
A segunda fundação da Bolívia
Os indígenas não eram filhos da
Bolívia: eram apenas sua mão-de-obra. Até pouco mais de meio século atrás, os
índios não podiam votar nem caminhar pelas calçadas das cidades. Com toda
razão, Evo disse em seu primeiro discurso presidencial, que os índios não foram
convidados, em 1825, à fundação da Bolívia.
Em 22 de janeiro do ano
2002, Evo foi expulso do Paraíso.
Ou seja: o deputado
Morales foi expulso do Parlamento.
Em 22 de janeiro do ano
2006, nesse mesmo lugar de aspecto pomposo, Evo Morales foi consagrado
presidente da Bolívia.
Ou seja: a Bolívia
começa a tomar conhecimento de que é um país com maioria indígena.
Quando ocorreu a
expulsão, um deputado índio era mais raro do que cachorro verde.
Quatro anos depois, são
muitos os legisladores que mascam coca, milenar costume que estava proibido no
sagrado recinto paramentar.
***
Muito antes da expulsão de Evo, os seus, os indígenas, já tinham sido expulsos
da nação oficial. Não eram filhos da Bolívia: eram apenas sua mão-de-obra. Até
pouco mais de meio século atrás, os índios não podiam votar nem caminhar pelas
calçadas das cidades.
Com toda razão, Evo
disse em seu primeiro discurso presidencial, que os índios não foram
convidados, em 1825, à fundação da Bolívia.
Essa é, também, a
história de toda América, incluindo os Estados Unidos. Nossas nações já
nasceram mentidas. A independência dos países americanos foi, desde o início,
usurpada por uma muito minoritária minoria. Todas as primeiras Constituições, sem
exceção, deixaram de fora as mulheres, os índios, os negros e os pobres em
geral.
A eleição de Evo Morales
é, pelo menos neste sentido, equivalente à eleição de Michelle Bachelet. Evo e
Eva. Pela primeira vez, um indígena é presidente na Bolívia; pela primeira vez,
uma mulher é presidente no Chile. E a mesma coisa poderia ser dita do Brasil,
onde pela primeira vez é um negro o ministro da Cultura. Por acaso não tem
raízes africanas a cultura que salvou o Brasil da tristeza?
Nestas terras, doentes
de racismo e de machismo, não vai faltar quem pense que tudo isto é um
escândalo.
Escandaloso é não ter acontecido antes.
***
Cai a máscara, a cara aparece, e a tormenta aumenta.
A única linguagem digna
de fé é a nascida da necessidade de dizer. O mais grave defeito de Evo é que a
gente acredita nele, porque transmite autenticidade até quando está falando em
espanhol, que não é sua língua materna, e comete algum errinho. Acusam-no de
ignorância os doutores que praticam a arte de serem ecos de vozes alheias. Os
vendedores de promessas acusam-no de demagogia. Acusam-no de caudilhismo
aqueles que na América impuseram um Deus único, um rei único e uma verdade
única. E tremem de medo os assassinos de índios, temerosos de que suas vítimas
sejam iguais a eles.
***
A Bolívia parecia ser apenas o pseudônimo daqueles que mandavam na Bolívia, e
que a exprimiam enquanto cantavam o hino. E a humilhação dos índios, já tornada
costume, parecia um destino.
Mas nos últimos tempos,
meses, anos, este país vivia em perpétuo estado de insurreição popular. Esse
processo de contínuos levantes, que deixou pilhas de mortos, culminou com a
guerra do gás, mas vinha de muito antes. Vinha de antes e continuou depois, até
a eleição de Evo que foi ganha contra vento e maré.
Com o gás boliviano
estava se repetindo uma antiga história de tesouros roubados ao longo de mais
de quatro séculos, a partir de meados do século dezesseis:
a prata de Potosí deixou
uma montanha vazia, o salitre da costa do Pacífico deixou um mapa sem mar, o
estanho de Oruro deixou uma multidão de viúvas.
Isso, e somente isso,
deixaram.
***
As manifestações populares destes últimos anos foram crivadas de balas, mas
evitaram que o gás evaporasse em mãos alheias, desprivatizaram a água em
Cochabamba e La Paz, retornaram governos governados que estavam fora, e
disseram não ao imposto sobre o salário e para outras sabias ordens do Fundo
Monetário Internacional.
Do ponto de vista dos
meios civilizados de comunicação, essas explosões de dignidade popular foram
atos de barbárie. Mil vezes foi visto, lido, escutado: a Bolívia é um país
incompreensível, ingovernável, intratável, inviável. Os jornalistas que dizem
isso, e repetem, enganam-se: deveriam confessar que Bolívia é, para eles, um
país invisível.
***
Nada tem de estranho. Essa cegueira não é só um péssimo costume de estrangeiros
arrogantes. A Bolívia nasceu cega de si, porque o racismo coloca teias de
aranha nos olhos, e é claro que não faltam aqueles bolivianos que preferem se
ver com os olhos que os desprezam.
Mas não é à toa que a
bandeira indígena dos Andes rende homenagem à diversidade do mundo. Segundo a
tradição, trata-se de uma bandeira nascida do encontro do arco-íris fêmea com o
arco-íris macho. E este arco-íris da terra, que na língua nativa é chamado de
tecido de sangue que flameja, tem mais cores que o arco-íris do céu.
Tradução:
Camilla Freire
* Escritor uruguaio, autor, entre outros, de De Pernas pro Ar: A Escola do Mundo ao Avesso, Ed. L&PM, 1999.