ESPECIAL
11 de março de 2006
Emir Sader
A guerra civil no Iraque
Quanto mais o governo Bush coloca em prática sua
política de “guerra infinita”, mais se desordena o mundo. Uma das lições a
tirar é a de que um mundo unipolar não significa um mundo mais ordenado. Quando
essa ordem é imperial, o mundo fica à mercê de políticas aventureiras.
Nada disso aconteceu. Ao invés
de tentar impor sua hegemonia, através das idéias aparentemente triunfantes –
expressas na ilusão do “fim da história” – da democracia liberal e da economia
capitalista de mercado, os EUA acentuaram seu papel de potência imperial. Os
atentados de 2001 foram respondidos com uma nova doutrina de segurança, que
afirma que os EUA não permitirão que nenhum outro país ou bloco de países possa
questionar sua superioridade militar. Assim, reivindicam o direito de “ataques
preventivos” contra forças ou governos que acreditam que possam atacá-los e
declaram uma “guerra infinita” contra o que chamam de “forças do mal”, que
buscam identificar com o terrorismo.
O resultado, a década e meia do
advento de um mundo unipolar, hegemonizado pelos EUA, é desastroso. Os EUA não
foram mais cenário de atos terroristas – objetivo primeiro do governo Bush -,
mas o preço pago pela política de militarização dos conflitos faz com que a
situação no Iraque, no Afeganistão, na Palestina, na Colômbia – os principais
epicentros da “guerra infinita” -, esteja piorando significativamente.
O Iraque está à beira de uma
guerra civil. Os belicistas do governo Bush podem estar contentes, por
considerar que xiitas e sunitas se anulam, guerreando entre si e deixando as
tropas estadunidenses momentaneamente de lado, como inimigo comum. Mas a
possibilidade de retiro das tropas, mesmo com os soldados pronunciando-se por
grande maioria pelo retorno para casa e a população atribuindo a pior avaliação
a Bush, não tem prazo para efetivar-se. Como Bush reafirma que só se retirarão
depois de cumprido seu objetivo – que se supõe seja a instalação de um governo
“liberal”, que possa se manter por si próprio -, ninguém prevê quando isso
possa acontecer, conforme esse objetivo vai ficando cada vez mais longínquo.
No Afeganistão, nunca houve
tantas ações de resistência contra a ocupação militar do país. A política de
privilégio absoluta do governo das iniciativas do governo de Israel levou à
eleição de um governo do Hamas na Palestina, rompendo-se qualquer tipo de
negociação de paz. Na Colômbia, a reeleição do candidato de Washington, Álvaro
Uribe, representará mais quatro anos de guerra.
O mundo é um lugar mais e não
menos inseguro com a política dos EUA. A resposta à violência com violência
gera uma escalada incontrolável. Os EUA optaram pelo domínio no lugar da
hegemonia, porque tampouco acreditam nas suas idéias, no seu projeto de mundo.
Porém, a incapacidade dos EUA
de impor uma ordem minimamente estável no mundo, não significa que surjam
alternativas no horizonte. Nenhuma força se propõe a mediar os conflitos, a
demonstrar que são possíveis soluções pacíficas, negociadas e justas para os
conflitos mundiais. Complacentes com os EUA alguns, aliados ativos outros, críticos
impotentes outros mais.
O próprio Fórum Social Mundial,
comprometido com a luta por “um outro mundo possível”, tem estado praticamente
ausente da luta pela paz no mundo, depois das imensas manifestações contra a guerra
do Iraque. Não formula alternativas, não organiza comissões que façam contatos
e proponha propostas de paz para cada conflito. Terminará congregando os
descontentes, que lutam por soluções locais e setoriais. Abandonando, no
entanto, o mundo às grandes potências, comprometidas com a indústria bélica e o
comércio de armamentos que alimenta e lucra com esses conflitos.
Uma das lições a tirar é a de que um mundo unipolar não significa um mundo mais
ordenado. Quando essa ordem é imperial – como no caso dos EUA -, esse poder
precisa de contrapesos, de controles, de resistência e de capacidade de reação.
Senão o mundo fica – como acontece agora – à mercê de políticas guerreiristas e
aventureiras. Salvar o mundo é, hoje, salva-lo do domínio estadunidense.
Emir Sader é
professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), coordenador do
Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança
da História".