ESPECIAL
08 de março
de 2006
De Bush, de Guantánamo e da CNBB
Surpreende a crítica do
Secretário-Geral da CNBB e de outros prelados ao governo Lula. Que alternativas
têm os bispos católicos? A de eleger Geraldo Alckmin, ligado à Opus Dei? Adorno
dizia que “depois de Auschwitz, toda cultura do Ocidente é lixo”. E depois de
Guantánamo, o que será?
Mauro Santayana
Em uma passagem de sua memória da
guerra contra os gauleses, César faz curta observação sobre a incapacidade
coletiva de identificar os perigos reais, em uma situação de medo. Geralmente
(e César fala sobre o sítio naval de Marselha), os acossados desprezam as
soluções possíveis e se agarram a esperanças vazias.
Estes dias brasileiros conferem
razão ao general e político romano, ele mesmo vítima da própria incapacidade de
identificar o perigo iminente – como deve ter descoberto naquele dia, no Teatro
de Pompeu, onde se reunia extraordinariamente o Senado – quando foi apunhalado
pelos conspiradores.
O país está diante de pesadas
ameaças internas e externas, e falta bom senso a seus líderes. O governo, que
tem acertado mais do que errado, não obstante a sua política econômica, está
preocupado em assegurar a vitória eleitoral e se tem descuidado de examinar,
com urgência e seriedade, as questões de fundo, e que ameaçam a nossa soberania.
A oposição, no oportunismo criminoso que acredita no quanto pior, melhor,
concentra-se em atacar o presidente Lula e seu partido. Para alguns, da
oposição, já convencidos de que o destino do Brasil é o de aceitar, formal ou
informalmente, o protetorado norte-americano, a desestabilização nacional é
parte da estratégia. Preferem governar como quislings, a contrariar os
interesses do Império.
Não se ouve, no Parlamento, uma
só palavra de protesto contra o relatório do governo norte-americano sobre a
corrupção no Brasil, nem contra as afirmações da Sra. Anne Patterson, auxiliar
de Condoleeza Rice, de que a Tríplice Fronteira “é uma área sem governo há
muitas gerações, um centro de contrabando, e agora está sendo usada para
facilitar o financiamento ao terrorismo”. Mas demos razão a essas acusações,
quando não colocamos na cadeia os responsáveis pela ida e vinda de dinheiro, em
caminhões fechados, pela ponte sobre o Rio Paraná. Os principais responsáveis
continuam sendo os diretores do Banco Central, que violaram a lei, mediante uma
simples portaria. Em seguida, são culpados os operadores dos quatro bancos
privados, capitaneados pelo Banestado, acusados de remeter ilegalmente ao
exterior dezenas de bilhões de dólares. Enquanto o Sr. Gustavo Franco – presidente
do Banco Central no governo anterior –, que confessou a irregularidade na CPI
(misteriosamente trancada) sobre o assunto, não comparecer aos tribunais,
estamos sujeitos a observações dessa natureza.
Ainda agora se revela que, no
mesmo governo, a Previ perdeu quase um bilhão de reais, ao associar-se ao Banco
Fontecidam e à Odebrecht, na construção de gigantesco resort para grã-finos no
litoral da Bahia. Para um país de memória curta, vale recordar que o Fontecidam
foi um dos beneficiados, juntamente com o Sr. Cacciola, de manobra do Sr.
Francisco Lopes e outros diretores do Banco Central, na súbita desvalorização
do real em janeiro de 1999. A cada dia mais se consolidam as provas de que o
Brasil, durante estes recentes e “áureos” tempos de desmantelamento do Estado,
tem sido saqueado por vários grupos de bandidos de colarinho branco, com a
conivência das autoridades financeiras.
Qualquer pessoa de bom senso se
dá conta de que devemos agir rapidamente, a fim de impedir a implosão de um
Estado nacional que começou a ser formado há meio milênio, e a construir suas
próprias instituições a partir de 1822.
Há algum tempo as autoridades
policiais do Rio de Janeiro apreenderam um documento manuscrito por Fernandinho
Beira-Mar, que deveria ter assustado o país, mas não foi levado a sério. Nele,
emite um decálogo, cujo primeiro mandamento é o de “amar a Pátria sobre todas
as coisas”. O lema do Comando Vermelho é “Justiça e Liberdade”. É assustador
que conhecidos criminosos usem o nome da pátria, e as idéias de liberdade e de
justiça, quando – era o governo passado – os governantes se empenhavam em
desfazer essas idéias centrais dos grandes povos.
É nesse contexto que surpreende a
crítica acerba do Secretário-Geral da CNBB, d. Odilo Scherer, e de outros
prelados ao governo Lula. Que alternativas têm os bispos católicos? A de eleger
o Sr. Geraldo Alckmin, ligado à Opus Dei, defensor da Daslu e que está
esquartejando a Nossa Caixa, a fim de privatizá-la? A de eleger qualquer outro
tucano? A de escolher um prócer do PFL? O problema é mais complicado do que
parece.
O governo Lula, não obstante a
submissão ao mercado, conseguiu arrancar da miséria absoluta milhões de
famílias brasileiras, o que já é um grande passo para sanar a situação
calamitosa do país. Nunca, neste país, um governo se empenhou tanto na busca de
soluções contra a desigualdade social quanto se empenha o de hoje. Por mais
açodadas e incompletas possam ser as medidas em favor do acesso dos pobres à
universidade. Mais de cem mil jovens de famílias pobres têm a oportunidade de
incluir-se no sistema universitário.
Se a intenção da Igreja era a de
advertir o presidente Lula para uma correção de rumos, o momento foi inoportuno
e a forma, incorreta. Ao atacar o governo, como o fizeram, os representantes da
hierarquia da Igreja levaram água ao moinho dos permanentes exploradores do
povo brasileiro. Não se pode debitar aos três anos do governo Lula o descalabro
em que se encontra o país, com o Exército sendo obrigado a invadir as favelas,
a fim de resguardar sua autoridade moral, depois de ter sido vítima de uma
emboscada dos mercenários do crime organizado. Não se pode debitar ao governo
Lula os assaltos ao Erário cometidos pelos banqueiros e seus associados no
Banco Central, durante o governo passado. Não é hora de atear fogo à pradaria,
mas de pedir a Deus que chova sobre a desolada e ressequida paisagem política
nacional.
Do outro lado da fronteira norte,
Chávez arma seus cidadãos, convencido de que os Estados Unidos preparam uma
invasão do território, usando a Colômbia como base e pretexto, a fim de
controlar diretamente o petróleo venezuelano. Washington já assinou acordos
secretos com Uribe, cuja reeleição está financiando, e seus assessores
militares já instruem as operações contra as Farc. É difícil acreditar que a
insânia de Washington chegue a esse ponto, de abrir novas frentes de combate,
quando seus jovens estão morrendo no Iraque e no Afeganistão, mas de Bush,
Cheney, Rumsfeld e Condoleeza Rice tudo se pode esperar. Quando sabemos o que
está ocorrendo em Guantánamo, conforme o relatório imparcial das Nações Unidas,
não podemos dormir em paz. Adorno dizia que “depois de Auschwitz, toda cultura
do Ocidente é lixo”. E depois de Guantánamo, o que será?
Mauro Santayana é colunista
político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968
a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos
principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de
que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do
Norte.
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