ESPECIAL
23 de março de 2006
A pátria de Geraldo
O governo de Vichy
resumia o seu projeto, como servidor dos alemães, em “Deus, Pátria e Trabalho”.
Antes deles, os integralistas brasileiros mantinham dois dos termos do trinômio
e trocavam o terceiro: “Deus, Pátria e Família”. Mais práticos, provavelmente
pensando no financiamento de suas atividades, os fundadores da TFP, com o Sr.
Plínio Correa de Oliveira à frente, optaram por “Tradição, Família e
Propriedade”. Deus e a Pátria foram, convenientemente, deixados de lado.
O Sr. Geraldo Alckmin
não tem o perfil dos seguidores de Maurras e de Pètain, nem de Plínio Salgado
ou Correa de Oliveira. Era de esperar-se que tivesse um pouco do perfil do Sr.
Mário Covas, o bravo combatente que enfermidade cruel impediu de continuar servindo
ao Brasil com seu rigoroso apego aos valores republicanos. O atual governador
de São Paulo parece ter a visão do mundo ofuscada pelos refletores da ribalta
política. Quando ele diz que “as pátrias (ao pluralizar a expressão,
banaliza-a) são as famílias, a religião, os costumes, a tradição” sua
excelência usa a linguagem da extrema direita. Ao usá-la, com ela se
identifica.
É provável que o
governador de São Paulo tenha optado por assumir posição anti-Lula, ou seja,
significar a opção maniqueísta, supondo que os eleitores são chamados a uma
escolha de clube aristocrático, em que há bolas brancas e bolas negras. Se o
bem educado governador de São Paulo conhecesse um pouco mais de História
Política, talvez entendesse que os eleitores, normalmente, não raciocinam
nesses termos absolutos. Eles fazem a escolha movidos por informações e
sentimentos variados. Quando o governador usa o plural para famílias e
costumes, e o singular para religião e tradição, confessa admitir uma só
religião, que não explicitou, mas pode ser entendida como a católica de Pio IX
e Pio XII, e uma só tradição, a conservadora.
A Pátria republicana, e é a que escolhemos e temos, pode ser entendida como a
soma dialética da liberdade com a solidariedade. Ela admite todas as crenças e
todas as idéias – incluídas as dos dois Plínios (o Salgado e o Correa de
Oliveira) e as do governador Alckmin, sem esquecer Charles Maurras, paladino da
monarquia absoluta e do anti-semitismo, e autor do citado slogan Dieu, Patrie
et Travail. Mas ao admitir que elas sejam expostas, em nome da liberdade, não
significa que vá a elas curvar-se e submeter-se: seu compromisso maior é com a
preservação da nacionalidade, com a solidariedade. Exatamente para ser
solidária com todos os seus nacionais, a República é, e deve ser, absolutamente
pluralista e laica.
O governador Alckmin
expressou certa solidariedade, de forma veemente, quando o grande centro
comercial Daslu foi surpreendido por uma operação conjunta da Polícia Federal
com a Secretaria da Receita. Expressou-a com os proprietários do negócio e com
os seus bem situados clientes. Naquela solidariedade com a Daslu, o social
democrata Alckmin contou com o apoio do liberal Antonio Carlos Magalhães e
outras personalidades elevadas do cenário político e social do Brasil, ou seja,
dos freqüentadores habituais das colunas políticas e das revistas semanais que
tratam da vida sans souci das pessoas ricas e geralmente ociosas.
Não é de todo mal, para
a democracia, que o Sr. Geraldo Alckmin assuma, claramente, a sua postura liberal-conservadora.
É bom, da mesma forma, que anuncie – o que se espera quando apresentar o seu
programa de governo – a retomada da venda das empresas nacionais aos
investidores privados. E para que haja a benfazeja transparência, convém logo
anunciar a sua equipe de governo, com o Sr. Luis Carlos Mendonça de Barros como
o grão vizir da economia. É importante que, nesta decisão de se apresentar como
o anti-Lula, reafirme os laços de entranhada solidariedade que Fernando
Henrique estabeleceu com os Estados Unidos. E se quiser ousar ainda mais, o
governador Geraldo Alckmin pode aceitar compartilhar com George Bush a
soberania sobre os nosso território e seus recursos naturais.
Se assim se fizer – e
ressalvando que ele fala em religião, enquanto seu chefe, Fernando Henrique,
sempre se confessou ateu – cumpre-se o projeto de Sérgio Motta, e teremos um
fernandismo sem Fernando, um fernandismo com Geraldo, o que não haveria com
José Serra. E há outro efeito benéfico de tudo isso. Se, como dizem os
franceses, a quelque chose malheur est bon, o reacionarismo de Alckmin poderá
despertar os brios do PT, a fim de que o partido – para se contrapor ao
governador de São Paulo – retome as bandeiras solidárias da esquerda
republicana e se livre, de uma vez por todas, desses agregados de Harvard e
arredores, que recebeu com os móveis do Banco Central e os computadores do
Ministério da Fazenda.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil,
diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário
da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre
eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e
correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.